Omar volta à Cidade Universitária após R$ 100 milhões e obra inacabada

O candidato ao Governo do Amazonas Omar Aziz (PSD) voltou a defender a retomada da Cidade Universitária da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em Iranduba). O projeto, lançado em 2012, durante o próprio governo de Omar, deveria representar um dos grandes investimentos em educação superior do Estado. Mais de uma década depois, porém, o complexo permanece sem cumprir a finalidade para a qual foi planejado.

Agora, em plena campanha eleitoral, Omar apresenta uma nova proposta para a estrutura: transformar o espaço em um polo de inteligência artificial, tecnologia e formação profissional. A ideia acompanha as novas demandas do mercado, mas também ressuscita uma questão antiga: como uma obra lançada durante seu governo, com centenas de milhões de reais previstos e recursos públicos já aplicados, chegou ao estado de abandono e nunca foi entregue?

Uma obra que nasceu no governo de Omar e não foi entregue

A Cidade Universitária começou a sair do papel em 2012, quando Omar Aziz comandava o Governo do Amazonas. O projeto previa um grande complexo da UEA em Iranduba, com estruturas acadêmicas, administrativas, alojamentos, hospital universitário, áreas comerciais e outros equipamentos.

O investimento inicial anunciado era de aproximadamente R$ 300 milhões. Segundo informações divulgadas posteriormente, cerca de R$ 100 milhões em recursos públicos já haviam sido aplicados quando a obra foi interrompida.

Omar deixou o governo em abril de 2014 para disputar uma vaga no Senado. A Cidade Universitária, entretanto, ficou para trás — sem conclusão e sem entregar à população o resultado prometido.

É justamente nesse ponto que a nova promessa de Omar encontra seu principal obstáculo político: o candidato tenta vender como futuro uma obra que pertence ao passado de sua própria administração.

De R$ 300 milhões a uma conta estimada em R$ 700 milhões

A história financeira do empreendimento também merece ser lembrada.

Quando foi lançado, o projeto tinha custo estimado em aproximadamente R$ 300 milhões. Seis anos depois, em 2018, uma nova estimativa apontava que seriam necessários cerca de R$ 700 milhões para concluir o complexo.

O aumento evidencia a dimensão do problema deixado pela paralisação e levanta uma pergunta que continua atual: quanto custará recuperar a Cidade Universitária em 2026?

A resposta não pode ser encontrada simplesmente repetindo a estimativa de 2018. A estrutura passou anos sem cumprir sua função, exposta às condições climáticas e sujeita à deterioração. Portanto, qualquer retomada responsável precisaria apresentar um novo diagnóstico de engenharia e um orçamento atualizado.

Até que isso seja apresentado, falar em transformar o local em um moderno polo de inteligência artificial continua sendo, essencialmente, uma promessa eleitoral sobre uma obra antiga.

Contratos também entraram na mira dos órgãos de controle

O histórico da Cidade Universitária não envolve apenas abandono e paralisação.

Em 2018, o Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM) apresentou representação ao Tribunal de Contas do Estado para apurar licitações e contratos relacionados à implantação do empreendimento. Segundo o órgão, sete contratos analisados somavam aproximadamente R$ 207,2 milhões.

Os contratos envolviam estudos, projetos, supervisão, infraestrutura, estrada de acesso e construção de prédios.

A existência dessas apurações não significa, por si só, que irregularidades tenham sido definitivamente comprovadas em todos os contratos. Mas mostra que a obra acumulou, além da paralisação, questionamentos que fazem parte de seu histórico oficial de controle.

Por isso, uma nova promessa de investimento deveria vir acompanhada de transparência sobre o passado e, principalmente, de informações detalhadas sobre o futuro.

Omar responsabiliza governos seguintes pela paralisação

Ao falar sobre a retomada, Omar atribui a paralisação às administrações que assumiram o Estado depois de sua saída.

Essa é a versão apresentada pelo candidato.

O ponto que não pode ser apagado, entretanto, é cronológico: a obra foi lançada durante o governo de Omar Aziz, recebeu recursos públicos durante o processo de implantação e não foi concluída enquanto ele estava à frente do Executivo estadual.

Os governos seguintes também não conseguiram entregar o empreendimento.

Portanto, responsabilizar exclusivamente as administrações posteriores não encerra a discussão. Pelo contrário: o histórico exige que sejam analisadas todas as gestões envolvidas, os contratos assinados, os recursos aplicados, as decisões administrativas e as razões que levaram à paralisação.

Inteligência artificial como nova promessa

A proposta de transformar a Cidade Universitária em um polo de inteligência artificial representa uma mudança significativa em relação ao projeto original.

O discurso agora é de inovação, novas profissões, tecnologia e preparação dos jovens para o mercado de trabalho.

São temas atuais e relevantes. O problema é que uma nova finalidade não resolve automaticamente os problemas antigos.

Antes de falar em polo tecnológico, seria necessário responder questões básicas: quais estruturas ainda podem ser aproveitadas? Quanto custará a recuperação? Quanto será necessário para equipamentos e laboratórios? De onde virão os recursos? Qual será o modelo de gestão? Quantos estudantes serão atendidos? E qual será o cronograma para colocar o complexo efetivamente em funcionamento?

Sem essas respostas, a inteligência artificial corre o risco de aparecer apenas como uma nova embalagem para uma velha promessa.

Mais de dez anos depois, a conta continua aberta

A Cidade Universitária representa um dos casos mais emblemáticos de uma obra pública iniciada com grandes expectativas e que atravessou diferentes governos sem chegar ao objetivo original.

O projeto nasceu com previsão de R$ 300 milhões. Cerca de R$ 100 milhões já haviam sido aplicados quando houve a interrupção, segundo informações divulgadas posteriormente. Em 2018, a estimativa para conclusão chegou a R$ 700 milhões.

Agora, Omar Aziz quer retomar o projeto que começou em sua própria administração.

A questão central, portanto, não deveria ser apenas qual será o novo nome ou a nova finalidade da Cidade Universitária. É preciso saber por que uma obra lançada em 2012 não foi entregue, quanto dinheiro público já foi consumido, quais foram os responsáveis pelas decisões tomadas ao longo dos anos e quanto o contribuinte terá de pagar para tentar concluir aquilo que começou há mais de uma década.

Uma promessa antiga diante de um eleitor mais exigente

Omar pode apresentar uma nova visão para a Cidade Universitária, mas não pode separar a proposta do histórico do empreendimento.

A promessa de um polo de inteligência artificial pode soar moderna, mas a estrutura física nasceu de um projeto antigo que não chegou ao fim. E, enquanto não houver diagnóstico técnico atualizado, orçamento de 2026, cronograma, fonte de financiamento e definição clara do modelo de funcionamento, a proposta permanece no campo eleitoral.

No fim, a questão é simples: antes de prometer transformar a Cidade Universitária em referência em inteligência artificial, Omar Aziz terá de explicar por que a cidade universitária que ele próprio lançou como governador nunca chegou a funcionar.

Mais de dez anos depois, o Amazonas ainda espera a entrega da obra. Agora, o eleitor é chamado novamente a ouvir uma promessa de futuro sobre um projeto que continua preso ao passado.

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